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Entrega de uma carta no dia de Natal

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Não vale a pena ter medo. É só andar. É só andar em frente até ao fim do corredor. É só abrir a porta, entregar este papel, papel, agarra-se aos meus dedos, sinto a sua textura granulosa e o relevo das palavras simples que trás escritas, perfeita caligrafia de perfeita mulher, não. Não. Não vou até lá.

Os flocos de neve são tão finos… Ainda assim sinto os vidros embaciados da janela a estremecerem, muito levemente. Leve é também o vento que arrasta a neve, até que ela se deposite desordenadamente nas sebes, nos arbustos, na fonte gelada, nos beirais, nas estátuas, em todo o palácio. Só não há flores. A única flor que resta neste edifício enorme é uma rosa e essa rosa ordenou-me que levasse esta carta. E eu não quero. Ordenou-me? Não, pediu-me. Ela nunca me ordena nada. Apenas pede e sorri, não posso fazer mais nada do que lhe obedecer. Não porque ela é a minha rainha, mas porque é a minha rosa. Quando as flores falam connosco temos de as ouvir, pois senão perderemos o odor das suas palavras. Só tenho de fazer o que ela me pede e depois ir para casa, descalçar estas botas pesadas e trocar de uniforme. Uniforme de gala, para poder ir à missa de Natal. Não significa nada esta missa, apenas mais uma conversa oca de padre para depois seguirmos para a festa. Estarão lá todas as amigas todas perfumadas todas lavadas todas arranjadas, tentando competir com a minha rosa mas falhando sempre redondamente perante o seu porte. Estará lá ele. Ele está sempre lá. Está sempre onde eu estou, mas pertence-lhe e não lhe posso tocar. Não, não creio que vá até lá.

Podia tentar justificar-me, dizer algo como “ela não merece”, mas eu sei que isso é mentira. Por mais que repita as mentiras na minha cabeça eu sei que não tenho razão, isso magoa-me mas eu sei que não tenho razão. Ela merece. Ela merece tudo, a minha rosa. Não é por ser rainha, por ter um estatuto social astronomicamente superior àquele que eu algum dia ambicionaria, se é que eu tenho algum tipo de ambição. Não, não é por isso. É porque… Porque era mesmo? Porque… Porque. Porque a flor que agora está morta e volta a florir com os beijos quentes da Primavera não precisa de ser nada a não ser uma flor para ser bela. A rosa não precisa de ser mais nada do que uma rosa. Assim é ela. É o corar do seu sorriso que a torna superior a mim. Pois eu já me esqueci de como sorrir sem ter de pensar em nada. Cresci. Esqueci-me de como se é uma criança. Ela pode sê-lo todos os dias. Por isso pode fazer-me até os pedidos que mais me fazem sofrer. Talvez eu deva lá ir.

Em breve será ano novo e a neve que cair então não será a mesma que vejo agora perante mim. Esta é uma neve natalícia, a neve que Jesus poderia ter visto se tivesse nascido em Versailles. Como seria tudo diferente se a primeira neve do profeta, aquela que ele teria visto com a primeira luz da vida ao abrir os seus olhos de recém-nascido, como tudo seria diferente se fosse a neve de Versailles. Jesus não seria um pobre carpinteiro, fugido no lombo rijo de um burro que viria a ser roubado a caminho de Nazaré. Seria um menino muito redondo e robusto, como uma abóbora coberta de linhos finos e sedas orientais. E no dia que agora é o Natal, o sofrimento de sua mãe seria compensado por centenas de presentes caros, longos tecidos cheirando a lavado, cães de loiça com olhos de brilhantes, berços monumentais carregados de doces coloridos, incensos medidos em quilates, pulseiras de ouro suficientes para cobrir a mais bela das carruagens, mirra transformada na mais saborosa das panaceias, tudo e tudo e tudo o que a mãe de Jesus merece e tudo o que ela nunca pensou que merecia mas que, vendo bem, lhe pertence. Mas isso seria se Antonieta fosse a mãe do salvador e não é. Mas é mãe e isso já é o suficiente. Nunca o poderei ser, ou então revelaria o meu segredo. Também não há nenhum carpinteiro José de Nazaré na minha vida. Aliás, há mas não me pertence. Pertence a ela e ela exige a sua presença no seu petit appartement, mais especificamente na sala de diversão, pelo, digamos, meio da tarde. Ou pelo menos é o que diz o papel que tenho na mão. Se calhar nem preciso do papel. Vou lá e digo-lhe “caro Fersen, a nossa rainha pede-lhe que se encontre com ela para fins lúdicos e recreativos”. Tenho confiança com ele, ele sabe o meu segredo… Mas não lhe posso dizer isto, pois não? O que é que eu faço? Tenho de lá ir.

Pensando bem, podia deixar para depois da missa. Assim tinha mais tempo para estar em casa, para descansar um pouco, para falar com André e perguntar-lhe o que devo fazer. Sei o que ele vai dizer, sei sempre. Vai dizer que tenho de ir, que é minha obrigação, que tenho de respeitar a rainha e tudo o mais. Ou talvez me abrace e me deixe pousar a cabeça no seu ombro e estar apenas ali. Sentada na cama, com ele ao meu lado, descalça, em mangas de camisa, talvez com o fio de ouro do baptizado a espreitar por entre o decote que me espreme os seios… Sentada ali, com a cabeça encostada naquele espaço entre o pescoço e o ombro, ornamentado por aquela clavícula que conheço tão bem, sentindo o seu coração a bater, lento, forte, rítmico, seguro, como um grande cavalo de patas macias correndo nos campos de caça do rei, sem um cavaleiro, sem um caçador, apenas ele, o chão, o vento e o seu suor. E se eu respirar fundo posso sentir o cheiro forte e masculino de André, meu irmão, meu gémeo separado a um nível cósmico. Sentir-me-ia melhor. Não precisaria conter as lágrimas como agora, porque simplesmente não haveria lágrimas. Com ele fico bem. Ele conhece-me tal como eu conheço, sabe tudo sobre mim tal como eu sei sobre ele. Sabe que eu sou uma mulher e que por mais que eu tente ser forte tenho o choro preso dentro do meu peito. Mesmo que eu empunhe a ameaçadora espada, meu peito se desabotoa, coração perdoa, eu arrependo-me e só me volto a encontrar quando ele me enlaça a cintura e me diz num sussurro que está tudo bem, que está tudo bem, que está tudo bem, cada vez mais devagar, cada vez mais baixo, até eu adormecer. Depois ele apaga a vela. No dia seguinte tudo está bem e posso voltar para a minha rainha. Sim, realmente, depois da missa parece-me bem. Mas e se Fersen se recolher logo depois da missa? Não posso entrar nos seus aposentos! Isto é, teoricamente… Posso. Teoricamente eu sou um homem. Qual é o problema de um homem entrar no quarto de outro homem? Tenho de lá ir agora.

Sim, qual é o problema de um homem entrar no quarto de outro homem? Quem me dera ser homem para poder entrar no quarto desse outro homem. Para me poder deitar na cama desse homem. Qual é o problema de um homem amar outro homem? Se eu fosse mulher não haveria nada desses problemas. Sou e não sou. Jesus, também sentiste isto quando Judas te traiu? Jesus, é tempo de pensar em ti, hoje foi o dia em que nasceste, há precisamente mil setecentos e oitenta anos, porque não me respondes? Explica-me: quiseste tu ser mulher tanto como eu? Como o faço? O que devo fazer? O meu desejo é queimar a carta e esconder as cinzas atrás de uma cortina, abrir a porta e dizer “Fersen, convido-o para fins lúdicos e recreativos”. Ele rir-se-ia, não é? Viria ter comigo e teríamos jogos de homens, fumando aquela droga dos desertos em longos cachimbos e tendo conversas de elevados teores sobre a política a enfrentar em relação à estúpida guerra na América. Não o quero ver, não quero pensar nele. Mas vou ter de o ver na missa de Natal de qualquer forma… Vou lá.

Marie Antoinette Josèphe Jeanne de Habsbourg-Lorraine, minha rosa, eu faço tudo aquilo que me pedes porque te amo. E amo-te por seres a mais inocente das flores neste jardim de pecadores. Pensa nisto como um presente de ano novo antecipado. Sei que também sabes o meu segredo e que por isso o teu presente vai ser pensado em mim. Pois esta prenda também é pensada em ti. Lembra-te que há neste palácio pessoas que não te odeiam. Fecho os olhos. Respiro fundo. Uma vez. Duas vezes. A porta está ali. Só me resta ignorar o ecoar dos meus tacões e abri-la. Lá vou eu.
Pois é, escrevi uma fanfiction. De Rose de Versailles. Para o concurso do ClubOtaku.

Sei lá, Oscar tece considerações sobre a vida e por acaso é Natal.
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