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[in Portuguese]

Agachado junto ao velho baú, encontrei aquele vinil. O álbum era tão largo quanto deveria ser, mas não trazia nada além do branco na capa. Com um movimento vagaroso, ritual de apreciação, deitei a capa do disco ao meu lado com a mão esquerda e contemplei o longplay contra a luz tremeluzente da lamparina no outro canto da sala quadrada numa mesinha pequena, o único móvel daquela alcova.

Éramos sós, ali. A precária lamparina em sua mesinha, o baú de base retangular no centro de seu aposento, e eu. Ou quase isso. O toca-discos se revelava num canto obscuro, voraz por mais uma seção, diametralmente oposto à única fonte de luz da saleta sem janelas.

Tentava mirar meu reflexo na superfície negra do vinil enquanto o erguia acima dos olhos. Nele nada havia além do brilho amarelado e tímido de quem vai em direção ao palco com medo de não saber mais cantar. Mas como cantava! Rodopiava no toca-discos e cantava como se a pequena alcova fosse um teatro! Girava e girava em torno do eixo, sem ganas de saber quando parar. Os pequenos ruídos, aqui e acolá, não alteravam em nada a rotação, tampouco o canto.

A criança agarrava a cabeça com as duas mãos, em êxtase, quando inesperada e sutilmente... Parou. Ele não rodopiava mais. Pura e simplesmente, à finalização do primeiro ato. Precisava de um novo impulso para seguir, conseguir. Ergui-me e virei o disco, irritado pelo súbito silêncio mal-quisto. Pu-lo a rodopiar novamente e desci sobre ele a agulha. Porém, ao novo som ela não reagia. Não agarrava mais a cabeça, mas seus braços pendiam molemente ao lado do tronco; suas mãos inertes tocando o chão frio.

O vinil rodava ao contrário, e à medida que a canção retrocedia, catártica, eu não mais conseguia regredir, imbuir-me novamente do êxtase inocente; infantil. A criança estava morta. O tempo não retrocederia. Ainda assim, tentava trazê-la de volta a cada seção.

Descia mais uma vez a agulha.
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